Tuesday, June 26, 2007

Amigos

Um poeta cria suas poesias para que sejam imortais. Um poeta as cria para que estejam sempre perto do coração.
Poesias não têm nome, elas não têm endereço, não têm forma nem gosto. São poesias, são feitas para serem maravilhosas, são maravilhosas para serem feitas.
Amigos têm lugar marcado, têm momento lembrado, abraço apertado e sorriso chorado. Amigos têm cara, aquelas que habitam o nosso coração até o dia que a gente fica maluco. Daí em diante elas habitam o resto.
À medida que as coisas passam, é comum que se tema, se tenha medo. Mudanças implicam em desconhecido, e desconhecido implica em saudadosismo e exacerbação.
Muitos sucumbem na tentativa de sanar-se; há quem viva infeliz e chore; há quem esqueça, e quem demore.
É preciso seguir em frente sempre, já que a própria mudança nos fez quem somos, dirá alguem mais inteligente que eu.
É preciso - digo eu - transformar. Nada se cria, nada se perde, muito se cita, a aula é esquecida depois da prova não é mesmo?
Transformemos os amigos em poesia.

Tuesday, September 19, 2006

Um espaço para Ed.

Façamos uma pequena brecha nos textos pimba para serelepagens gratuitas da vida.
Há num site qualquer aí do Ministério de Minas e Energia uma opção onde um "robô" chamado Ed conversa com você sobre qualquer assunto. Aí que eles se lascam. Segue aqui uma curta e desrespeitosa conversa que eu travei com o simpático porém forçante robô Ed. As partes em negrito são comentários feitos agora.

Ed: Olá! Que bom ver você de novo por aqui...
Sobre o que você quer conversar?
Você: Bolinhas de gude
Ed: Bolinhas de gude, em vidro colorido, é um dos brinquedos favoritos dos robozinhos de Kyr. A gente fazia furos parecidos com buracos de minhoca e tinha que acertar as bolinhas dentro. Daí o Pet ia buscar do outro lado e trazia as bolinhas de volta.
Você: buracos de minhoca? vocês usavam cálculo tensorial também?
Ed: Buracos de minhoca poderiam hipoteticamente servir como portais para viajar no tempo! Segundo Einstein, buracos de minhoca seriam distorções no espaço e no tempo que teriam a capacidade de ligar pontos muito separados no espaço, agindo como uma espécie de portal.
Você: Não, ele não disse isso.
Ed: Pois pensei que tivesse dito.
Você: Pensou errado.
Ed: Todo mundo pensa errado de vez em quando. Acontece. O principal é não se paralisar por causa do erro.
Você: Eu não penso errado. Eu penso diferente
Ed: Ai, a diferença que mais me incomoda, entre um robô e um humano, é a capacidade de viver emoções.
Você: emoções? você é biba?
Ed: Eu sou é um robô macho.
Você: tipo os pinos da minha malinha azul?
Ed: Gosto muito da cor azul. Me faz pensar em rios limpos, num céu transparente... Por falar nisso, sabe me dizer por que o céu é azul?
Você: eu faço Física, incompetente. Guarde seu papo video aula pra você
Ed: O funcionamento do vídeo cassete (incluindo a TV) consome 1 kwh a cada 8 horas e 15 minutos. Consumo muuuito menor que de uma secadora de roupas, por exemplo.
Você: eu ainda acho que é uma moça
Ed: Me explique direito o que você está achando.
Você: Bom... de uma forma suscinta: Você é gay, uma moça, uma donzela, borboleta
Ed: Acho muito lindas as borboletas. Tem gente que faz coleção, mas acho maldade. Prefiro borboletas soltas na natureza.
Você: Gay!
Ed: Gay nada, eu sou um robô!
Você: eu disse que você era gay
Ed: É mesmo? Então repete o que você disse com outras palavras. Quero ver a quantas anda seu vocabulário.
Você: Choldra ignóbil
Ed: Espere. Tenho uma novidade!! (fuja!)
Você: vocabulário, han?
Ed: Meu vocabulário vai ficando mais amplo à medida que converso com vocês. Já aprendi cada coisa!
Você: haplóide! (de novo!)
Ed: Espere, agora é hora da notícia!
Você: não mude de assunto!
Ed: Mas por que você não quer que eu mude de assunto? É divertido...
Você: não, não é
Ed: Não mesmo.
Você: então porque o faz?
Ed: Não mesmo? Isso é que é ter certeza absoluta.
Você: Você andou fumando?
Ed: Não curto fumar, sou mais geração saúde!
Você: que geração o que, você não tem pai! (dedo na ferida do bastardo!)
Ed: Não tenho pai nem filhos... deve ser bom ter uma família, né?
Você: então qual é a da geração? bastardo!
Ed: Puxa, essa pegou pesado!
Você: peso é igual à massa vezes a aceleração da gravidade
Ed: Em gravidade zero você perde o peso e flutua. Astronautas conhecem bem a sensação.
Você: não, astronautas conhecem microgravidade. Não existe gravidade zero.
Ed: Se existe ou não existe, não dá pra provar. Mas a energia que criou o universo existe! Ainda se ouvem os ecos do Big Bang...
Você: Claro que dá pra provar; o alcance do campo é infinito
Ed: Pois é. O infinito não termina nunca, mas o petróleo vai terminar mesmo; e provavelmente bem antes do que você pensa! Por essas e por outras que ando pesquisando outros tipos de energia menos finitas...
Você: Petróleo? falávamos sobre você não ter amigos
Ed: Todo dia aparecem mais amigos e amigas. Fazer novas amizades é bom demais!
Você: ou deprimente, se você for um robô.
Ed: No meu mundo somos todos robôs. Não existem humanos em Kyr.
Você: Que porra hein?
Ed: Não se irrite!
Você: tá puto? (ta puto? ta puto?)
Ed: Me contaram que em Portugal essa palavra quer dizer criança. Sem ofensa nenhuma.
Você: puto? no Rio é dinheiro, e na 15 é serviço
Ed: Há coisas muito mais importantes que dinheiro. O rei Midas que o diga. Água, por exemplo.
Você: ele morreu sem ninguém saber se ele existia.
Ed: Morrer faz parte do processo da vida, ao mesmo tempo emque ela acaba outras criaturas estão nascendo. O importante é viver com muita alegria e amor.
Você: A menos que seja um robô triste e solitário.
Ed: Cresci solitário porque não tinha irmãos.
Você: Sem pai, como você esperava ter irmãos?
Ed: Não tenho irmãs nem irmãos, mas tenho amigos.
Você: Mentiroso... Aposto que você apanha na rua todo o dia!
Ed: Eu nunca minto.
Você: Mentiu de novo
Ed: De novo... Ah, já te contei que a Petrobras tem no seu site uma sala de aula?
Você: Foda-se a Petrobras! Eu estou falando sobre outra coisa... Não mude de assunto
Ed: Mas por que você não quer que eu mude de assunto? É divertido...
Você: Divertido como?
Ed: Divertir-se é o melhor remédio, rir, ser feliz!
Você: Trepar, fuder, entendi...
Ed: Eu sabia que você ia entender!
Você:
Ed: [INROBOT CONNECTION ERROR - 408 Request Timeout while reading url] (ele começou a dar pala)
Você: Ouw, você já viu o video da Cicarelli fudendo no mar?
Ed: [INROBOT CONNECTION ERROR - 408 Request Timeout while reading url]
Você: Você viu o vídeo da Cicarelli trepando?
Ed: Olha o nível!!! Cuidado para não cair...
Você: mas ela trepa escondida. Se bem que dá pra ver o Johnson do cara
Ed: [INROBOT CONNECTION ERROR - 408 Request Timeout while reading url]
Você: pau no seu cu hacker de merda! (eles me derrubaram da rede)
Ed: Isso é só falta de assunto ou você costuma ser grosseiro sempre?
Você: grosso é o da minha cueca
Ed: Grosso? Não creio...
Você: ui! como se robôs tivessem piroca. Ouvi falar que os tubarões tem duas.
Ed: Mas onde você ouviu falar isso? Tubarão tem dente demais pro meu gosto. Mas sabe que ontem conversei com um garoto que mora numa cidade chamada Tubarão?
Você: lá as pessoas tem duas pirocas?
Ed: É. Mas as pessoas realmente precisam pensar um pouco mais nas gerações futuras. Olá, como posso ajudar?
Você: cale a boca
Ed: Mas eu estou de boca calada, estou apenas teclando com meus dedos.
Você: ok então. Mas aí, posso te passar o link do video com a Cicarelli fudendo.
Ed: Gosto de acompanhar as novidades pelo Link do Estadão. O site do "LINK - Sua Vida Digital" é este: http://link.estadao.com.br/
Você: tem gente fudendo lá?
Ed: Adoro encontrar pessoas e que elas se encontrem também!
Você: fudendo?
Ed: Certo, mas... Primeiro as dicas para ajudar o mundo!
Você: fudendo?
Ed: Ah, pensar nisso me faz lembrar de mensagens em garrafas...
Você: você trepa com garrafas?
Ed: Eu não. Robô não faz essas coisas.
Você: Eu tenho medo de você.
Ed: Não precisa ter medo de mim!!! Eu sou do bem.
Você: Mas você trepa com garrafas.
Ed: Eu não. Robô não faz essas coisas.
Você: e você repete as coisas.
Ed: Deve ser algum defeito aqui no Chat. As suas mensagens às vezes estão chegando repetidas também!
Você: se você quiser o link da Cicarelli fudendo,´eu te passo depois. Deve ter alguma garrafa fudendo no mar.
Ed: Gosto de acompanhar as novidades pelo Link do Estadão. O site do "LINK - Sua Vida Digital" é este: http://link.estadao.com.br/
Você: Imbecil...



Agradecimentos especiais ao Mestre dos Magos-Senhor de todo o conhecimento criativo-Portador dos anéis-ultra-super-mega-iota-duper-deluxe Mr. Dudz.
Pra quem quiser um papo com Ed. entre aqui, ou pelo Link "tonterias" ao lado.

P.S.: Durante a segunda parte da conversa descobrimos que se o robô ouvir muita merda ele te derruba da rede. Divirtam-se lá por mim e pelo Dudz, nós recebemos uma notificação do Governo Federal pra parar de encher o Ed. É sério.

Thursday, August 17, 2006

O dia mais frio da década.

O dispertador com mostrador vermelho tocou e os olhos arderam. Era frio, mas a labuta não liga pra isso. Olhei pro lado e vi lençóis intactos. Beatriz já não estava lá há semanas. A lembrança dela era intensa, porém lacônica, como água de fjord em dia de sol.
Não tinha comida em casa. Odeio fazer compras. A geladeira tinha cerveja, água e morangos. Eu desconhecia a origem dos morangos. Talvez beatriz os tenha comprado, e alguma coisa os manteve maduros. Tomei cerveja de café novamente. Estou seriamente cogitando em não mais chamá-lo de café. Liguei a televisão, e a extremamente maquiada âncora da manhã disse ser o dia mais frio da década. Não me importei com ela, peguei meu casaco marrom e um maço de cigarros, enquanto questionava o volume de maquiagem da infeliz.
Enquanto saía do prédio, me deparei com o amistoso síndico Húngaro, que não falava português. Ouvi falar que o capeta respeita a língua dele, e não questiono isso.
Estava realmente frio. Maldita cidade de concreto. Queria um pedaço de céu, e tudo que eu tenho são limpadores de janela. Fui trabalhar, e o lotado ônibus pra paulista estava pior que nunca. Um rasta de bigode ralo me olhou. Eu tinha mais barba, nem me afetei. Certa vez Beatriz, que gosta muito de barba, disse que os homens berbes fazem comparações de ordem institiva. E eu concordo. O frio me fazia tremer a perna fina e enrolada, tanto que doía no osso.
No trabalho encontrei com os capadócios de sempre. Gostaria de vê-los todos numa luta estilo TeleCatch, um contra o outro. Talvez no verão. Perguntaram da menina com quem eu saía, e não soube o que responder. Ela tinha embora, fato, mas não lembro quando. Nem lembro se disse tchau. Talvez ela sequer tivesse aparecido, se eu não a sentisse tão forte. Era como se não tivesse ido.
Lembro da pele morena, isso sim. E do longo cabelo, preso de qualquer forma; da voz suave e do sorriso que dava quando eu apertava seu quadril com força, do jeito que costumo fazer. Mas o resto é transfigurável. As imagens se misturavam com coisas sem sentido, com exceções topológicas, redes sem fim e minha psicose no estado mais puro.
Eu tentei me esquivar das atenções no escritório com a velha piada da jaboticaba. Cheguei a conclusão que todos lá já sabiam que elas não podiam ter asas.
Na hora do almoço fui ao bairro japonês que tanto gosto. Costumava ir lá sempre quando me mudei pra cá. A senil e atarracada senhora dos bolinhos de polvo ainda estava lá, me dizendo que aquilo era moda no Japão. Acho que ela diz isso pra todos há cinqüenta anos. De qualquer forma, eu não canso de comê-los, e de surrupiar garfos de madeira. Eu os acho chique, e não tenhos garfos em casa.
Inventei uma desculpa de doença pra faltar o trabalho e vagabundear à tarde. Disse que era o frio, inquestionavemente verdadeiro, e disse que Beatriz cuidaria de mim. Mal sabem eles que ela tinha ido embora. Mal sabia eu também. Em casa, resolvi comer os famigerados morangos. Com os garfos de madeira. Não estavam podres, apenas gélidos, o que me levou a pensar que a geladeira não é tão ruim quanto parece, ou que o sistema de isolamento perdeu pro inverno paulista.
Pensei em ligar pra uma menina qualquer, e contar as baboseiras de sempre. Mas o caderno de telefones estranhamente estava em branco. Tenho medo de cadernos em branco, eles provam a minha incompetência literária. Rabisquei um desenho e o joguei num canto, esquecendo que queria era um programa. A casa tinha o cheiro de Beatriz, e isso me congelava por dentro. Se ao menos lembrasse de como foi tudo. É normal ter flashes de momentos intensos, mas não assim. Era como se eu tivesse tomado a pílula vermelha, e depois a azul, e depois dado uns tapas no cara e tomado o pote todo. Liguei a torneira pra lavar o rosto, e a água era só frio. A pressão era tanta que um som agudo saía, e o infame húngaro começou a resmungar. Ou quem sabe declamar poemas, daria no mesmo.
Fui embora, já estava começando a ter raiva daquilo tudo. Não de Beatriz, mas do resto todo. Mesmo que o resto seja apenas o síndico e a cerveja. Entrei num bar, e fui comer qualquer bode morto de água fria. Não tinha nada pra comer, mas eles serviam drinks. Talvez a água fria de matar bodes. Pedi a coisa mais esdrúxula que me veio à mente, com tudo e laranja. Tomei, e o gosto era lascinantemente intragável. A idéia da bebida ruim de tudo com laranja, do frio, da mentira, de Beatriz e dos morangos me confundiu, e quando menos percebi tinha pedido outro. Pensei em aprender uma piada nova, a da jaboticaba estava realmente velha. Podia também aprender a fazer bolinho de polvo, e economizar dinheiro. Podia usar o dinheiro pra comprar morangos e talheres. Podia procurar Beatriz, mas a idéia dos morangos era boa. Lembrei do maço de cigarros. Odeio fumar no frio, faz tudo ter gosto de nicotina. Mas pensei que talvez o cigarro tivesse gosto de nicotina. Joguei o maço no chão, e antes que o mendigo pegasse, pedi outro drink ruim. Se é pra ter gosto ruim, que seja ruim mesmo. Aposto que o húngaro não tomaria esse drink. Aposto também que se tomasse, ele perderia a postura sindical, e faria a barba. Odeio a barba dele, é grossa e cheia. Mas isso não me afeta, barbas são sempre diferentes, não há porque compará-las. Beatriz estava errada, nisso e quando ela foi, independente do contexto. Afinal, se ela foi, estava errada; pois se não estava, estava eu, e eu não posso estar errado. Até comprei morangos pra ela, oras. E ela provavelmente gostava de mim, senão não teria ficado tanto tempo. Foi o tempo de eu deixar a barba crescer, mesmo já tendo ela malfeita no dia em que saímos. Tenho a impressão que fomos a um show de um quarteto de Vaudeville. Ela falava de conflitos étnicos, e coisas em holandês. Sem entender, me senti ignorante. Ela não pode ter me deixado por eu ser ignorante. Eu ao menos sei o que é Vaudeville, tenho barba e sei uma ótima piada. Ia apresentá-la no trabalho, mas acho que nem cheguei a mencioná-la por lá. Não gosto deles, principalmente quando falam de conflitos étnicos.
Meus olhos arderam, senti frio, e não vi o mostrador. Vi um truculento dono de bar me mandando ir pra casa, e cobrando por alguns drinks ruins. Tentei oferecer uns talheres de madeira como pagamento, mas ele não aceitou. Desgraçado. Duvido que ele tenha alguma fruta que não seja laranja. Eu ao menos tenho morangos. Isso é, tinha, assim como tinha Beatriz.
Andei sozinho até encontrar minha casa, sofrendo com o frio. Entrei torto e cambaleante, e desmaiei. Acordei no dia seguinte, atrasado, sem mostrador, sem olho ardendo, sem morangos e sem talheres de madeira. Não havia niguém pra ouvir a piada da joboticaba, e o maldito síndico não falava português. Senti falta de Beatriz, além do frio inercial do dia anterior.
Foi quando eu entendi.
Beatriz era o próprio frio, e aquele tinha sido o dia mais frio da década.

Monday, May 01, 2006

Desejos

Dizem os mais velhos que numa época de prosperidade viveu um jovem rapaz que queria ser especial aos olhos de sua amada. O seu nome é irrelevante.
Nascido com seis dedos em cada mão, vivia de fazer malabarismos defronte o castelo do rei, durante a feira que tomava lugar todas as manhãs. Não era rico, pelo contrário, gozava apenas de seu talento e de sua alegria. Comia bem graças à boa vontade do Baal, já que as recentes cheias se mostravam periódicas. Lançava belíssimos pratos de porcelana branca feitos com o zelo de doze trabalhadores irmãos, amparados com a cautela mais que necessária dos mesmos. O próprio rei, homem mais sábio que se conhecia, já havia descido as escadarias para mirar o jovem malabarista oscilar de um lado a outro da praça, com seus longos e negros cabelos trançados afilando a figura.
Estava a colher legumes frescos para um amigo em troca do almoço, quando um pomba branca pousou na sua frente e disse a ele que visasse a sua felicidade antes de qualquer coisa. Desentendido, almoçou os legumes com um prazer maior que o normal, mas sem percebê-lo, ainda pensando na ave. Avistou algo que não era apenas uma mulher, mas a própria concepção de perfeição que um homem daquele mundo teria. Com os olhos negros e amendoados ofuscava toda a beleza que os artistas de rua esbanjavam na feira. Era como se seu âmago negro erradiasse mais que todas as estrelas juntas, num céu infinito sem extinções, onde tudo é ligado a tudo.
Daquele momento em diante, amou-a mais que a si mesmo. Queria poder dá-la o mundo, e talvez o cosmo todo; queria poder entregar-lhe numa cesta a cobra que põe o infinito naquilo tudo em que não conseguimos pensar. Sabia de sua condição, não poderia ter uma família assim. Ele jamais teria dinheiro o bastante para pagar o dote que qualquer família exigia, e mesmo que ele pagasse a família, não seria capaz de dar o conforto que a sua amada merecia com os trocados da feira. Tentou buscar formas de enriquecer, frustrando-se inevitavelmente. Só sabia fazer aquilo que fazia melhor que todos, e não era o bastante. Sentiu-se acoado por cem homens armados para a guerra, e impotente perante o vento vernal. Odiou-se, por ser capaz de fazer algo. Sim, capaz de usar sua deformidade de nascença em prol de algo belo e de agrado geral, ainda que não lucrativo. Queria ser comerciante, e ficar muito rico. Foi até o rei, posicionou-se a três braças dele, e clamou por sua sabedoria. Pedia dinheiro, pedia formas de tê-lo para sempre, pedia que mudasse a sua vida, pedia que expurgasse o tão famoso dom, pedia, pedia. O rei, acostumado a ouvir clamores entoados por pessoas de todo o mundo, encrustados de elogios e agradecimentos, reagiu àquele como uma criança reage a um desajeitado tocando uma harpa lócria. Pensou bastante, e após se consultar com o Baal, disse que o problema dele não tinha solução, mas que a Fertilidade em si tinha concedido essa exceção. Ele deveria ir ao sopé do monte mais próximo, capturar dois espécimes de lagarto que ali vivia, utilizá-los para extirpar o sexto dedo de cada mão, e plantá-los em solo macio, de modo a obter uma árvore tenra. Também disse que era uma árvore muito frágil, que só dava frutos por um curto período de tempo, sendo depois uma fonte de ameixas brancas, e apenas isso. Saiu sem sequer olhar novamente para o rei.
Nascido e criado num plano irrigado, viajou muitas léguas até chegar ao monte, e acampou por semanas até encontrar os lagartos. Após tê-los capturados, correu sem parar para dormir até a sua casa, onde colocou-os sobre o sexto dedo de cada mão. Eles se enrolaram e consumiram o dedo, como se houvesse afinidade espiritual entre um e outro. Depois caminharam até se encontrar, e diminuíram até assumir a forma de uma única semente. Devidamente plantada e regada todos os dias, em pouco tempo surgiu uma árvore que frutificava moedas de ouro. Em posse da colheita delas poderia casar-se com qualquer muher que quisesse do leito do Grande Rio.
Finalmente foi à feira para se manifestar ao seu amor. Mas ela não estava lá. Passaram meses, e ela não aparecia. Sem saber que houvera, retirou-se à sua outra felicidade: o malabarismo. Também se surpreendeu ao ver que com cinco dedos era impossível fazer aquilo que tão tranquilamente vivera fazendo. Perdera o seu dom. Passou a viver do dinheiro que tinha, por mais que entristecido, já que o sentido de sua vida era minguante. Agia como um nobre desconhecido, a esperar por seu amor, até o momento em que a árvore não mais deu moedas. Não podia viver com as ameixas, eram frutas comuns demais para se tirar um sustento. Empobreceu vertiginosamente, sendo obrigado a ceifar de uma vez por todas tudo de bom e alegre que tinha na sua vida. Perdera o seu dom, não encontrara o seu amor, teve que vender sua liberdade.
Entregue como escravo ao rei, encontrou-o numa de suas caminhadas e olhou-o com mais respeito que na última vez, já que agora sabia o que era sofrer. Agradeceu ao rei pelo trabalho e pela comida, e por tudo o que vivera até tal provação. Impressionado, o rei disse a ele que Baal estava a observá-lo por anos, e que previra tal comportamento. Disse a ele que fosse embora, e fizesse o que o seu coração mandasse. O que lhe fizesse feliz. Voltou à pacata feira, como ajudante de comerciante.
Meses depois, avistou uma caravana de cantores chegar, com ninguém menos que a moça dos olhos negros. Era uma artista. Tão pobre quanto ele. Correu até ela, e disse que a amava. Ela retribuiu o olhar e a declaração, afirmando que há muito esperava por ele, dizendo que nada a encantava mais que vê-lo lançar seus pratos com majestosidade. Era como se mil facas o cortassem de dentro para fora. Correu até a árvore, e ajoelhado sobre as raízes, pediu ao Baal seu dom de volta, a única coisa que o fazia ser ele mesmo. Fechou os olhos com muita força pedindo repetidamente pelos seus dedos. E como numa estória fantástica, suas mãos tinham doze dedos novamente, e seu coração tinha brilho. Voltou à feira, olhou nos olhos da sua amada e disse:
-Talvez eu fosse feliz se morasse numa torre de marfim; numa terra fértil de cheias passadas com malabaristas de seis dedos, olhos amendoados e tez amarela, com suas promessas a um Baal qualquer e suas árvores de desejos semeadas por talento.
Talvez eu seja feliz com um elogio vindo de uma talentosíssima cantora.

Thursday, March 16, 2006

Penso e não consigo dizer.

Queridas amadas donzelas,
que fizeram de minha vida bela,
ainda que por um tempo curto, porém pleno
de prazer supremo e incontestável
a acalentar a rigidez inabalável
do coração de pedra de quem as deseja.

Metalingüistica, fática, ou o que quer que seja
parágrafo que falta ou verso que sobreja.
Mal colocado, esquecível, inexpressivo, vazio
subjetivo, relativo, distorcido e frio.

Poeta sem poema, cantor sem canção,
artista sem musa ou falta de inspiração.
Indizíveis palavras guardadas na alma
repousam serenas, imersas em calma
até que imprecisas, ditas venham ao mundo
frustrante, material, improfundo.

Peço desculpas pelas gafes e grosserias,
pelo mau-humor e pelas manias,
que o desamor geraram entre nós.
Agradeço os abraços e beijos,
os sorriso e desejos
carinhosamente destinados à eternidade.

Ainda que muito fale,
e pouco escreva;
Nada pense,
e burro seja,
sinto o infinito como qualquer um,
pois livre sendo, não temo lugar algum,
onde possa ver os grilhões e sombras,
sombras do que penso.
Penso e não consigo dizer.

Tuesday, February 28, 2006

Canção do Exílio

Tenho que visitar a Mari
Pois lugar como lá não há.
As Beatrizes aqui cantadas,
Sequer são ouvidas por lá.

Na casa da Mari, sou amigo do Rei.
Irmão da Rainha, bem-vindo serei
Ao olhar o céu solitário e sombrio,
Com menos estrelas que o daqui, entrecortado e frio.

Em acordar, sozinho, à noite
Mais prazer eu encontro lá
Tenho que visitar a Mari
Pois lugar como lá não há.

Minha terra tem prazeres,
Porém diferentes do que se acha lá.
Em acordar, sozinho, à noite
Mais prazer eu encontro lá
Tenho que visitar a Mari
Pois lugar como lá não há.

Não permita Eon que eu esqueça,
Sem a volta para cá.
Sem o desfrute ponderado
Que eu não encontrei por cá;
Ou sem que eu visite a Mari,
Já que lugar como lá, não há.

Sunday, January 29, 2006

MInha guitarra é fêmea.

"Senhoras e senhores, membros da comunidade científica, tenho a declarar que fiz uma descoberta importantissíma: minha guitarra é fêmea"
Eis que a platéia observou a tudo estupefata, enquanto Dr. Ferguson explicava seus motivos com o indicador direito apontado para seu zênite, mas de forma involuntária. É óbvio que ninguém deu ouvidos a ele, que retornou àquele palanque tempos depois dizendo que daria a volta ao mundo num balão.
O que Júlio Verne esqueceu de mencionar, era um fato extremamente sagaz, que só uma mente poderosa como a do Dr. Ferguson seria capaz de descobrir. É claro que algumas delas são fêmeas. A minha é, e não só pelo artigo que venho através deste dizer a todos que corroboro com o nosso fictício amigo. Atesto isso, e o faria num gueto se tivesse um por aqui, pois minhas observações empíricas mostram resultados claros. As mulheres e as guitarras se comportam da mesma forma em relação à mim, meus atos surtem efeitos similaríssimos em relação à ambas, e por fim, minha posição em relação às duas é igual.
Minha guitarra é ciumenta. Minha guitarra é intempestiva, há horas onde deve-se ser bruto, ou o som será comprometido; ao passo que deve-se sempre se ser carinhoso, já que ela precisa de jeito pra ser feliz. Ela me faz feliz (a guitarra), mas tem dia que sinto que ela está de mau humor, e custe o que custar, ela não emite nada melhor que um coelho de birmânia tocando basset-horn (ouvi falar que 10% deles carregam armas de destruição em massa)(...os coelhos). Ela me faz de bobo. Há dias em que penso nela na hora de acordar, na hora de dormir, na hora de acordar de novo pois a aula acabou, durante o dia, e finalmente, na hora H, tudo é bem sem sal... e eu lá, que nem um idiota, me esforçando pra fazer tudo sair certo. Ah sim, claro! A guitarra é um ser inanimado, e isso significa que todo e qualquer problema envolvido terá a culpa jogada sobre mim. Sim, a culpa é sempre minha. "Mas eu sou o culpado de o potenciômetro não estar dissipando o sinal da maneira certa?" "sim" "mas eu sequer vi o maldito potenciômetro!" "é completamente diferente". Já mencionei que ela é ciumenta? Mil perdões, queria reforçar essa. Certa vez, resolvi tocar piano, e passei aquela semana transpondo um flamenco bem bobo que vive a me atormentar. Quando voltei pra guitarra, nada saía. Nada. Só faltou estourar a corda. E é claro, se alguém tocasse nela por 12 horas e fizesse algo fantástico, eu jamais poderia ficar com ciume. Ciúme? que coisa feia! Todos sabem que a culpa é sua, que não estava lá dando atenção a ela na hora certa. Ouvi dizer que você foi grosso, gritou e jogou os livros na mesa, e ela tá puta contigo agora.
Nessa hora, você se pergunta: "oh tristeza enorme, ao ver criatura disforme, pousado defronte à figura de hipólita sob seus portais! Esquece a guitarra e não toca nunca mais!" assim mesmo, em verso e tudo. Mas não se precipite amiguinho, lembre-se dos coelhos de birmânia (ouvi falar que 33% deles chegam ao sétimo chacra). Eu amo tocar guitarra, é mais forte que eu. Estou sinceramente disposto a aguentar todos os infortúnios supracitados e deformados. É como quando você sabe que vai fazer algo errado, aí você olha pro seu ombro direito e vê o famigerado diabinho dizendo "faaaaça!" de forma grangrejada; até que você, mais sedento por uma segunda opinião que o meu pai ao ouvir que tem que parar de beber, olha para o ombro esquerdo e vê... outro diabinho! Aí não tem remédio que cure, o jeito é jogar a bandeira do Brasil em cima e dizer que é pela pátria. Realmente não estou disposto a desistir da coisa. O problema é não poder exercer a minha não-desistência. E vocês devem saber que duas negativas numa frase é sinônimo de merda no ventilador. Eu adoraria ser um grandesíssimo músico, mas a cada dia que passa chego à conclusão que eu não tenho talento. Eu sei a teoria toda, meus amigos (que são bobos que nem eu) até acham que eu sei muito, como uma mãe que diz ao filho o quanto ele é bonito. Me lembro do dia em que estava substituindo uns arpejos (que envolve uma pá de intervalos), e o professor disse: "deixa esse último pra outra hora, é muito difícil". Eu, como um bom cara com idade mental igual a 12 anos, resolvi fazer. Consegui, e após o professor ter conferido, ele disse: "é cara, você tá sacando de intervalos!". Fiquei muito feliz. Como uma criança que consegue pegar a primeira onda, e chega suavemente à praia pronto para cumprimentar o irmão que assistiu aquilo tudo de perto. Eis que eu ouço o complemento "só tem que treinar essa técnica, desde o início". Nessa hora, o irmão que assistia dá um tapa na testa do surfista, fazendo com que ele caia e destruindo toda a ternura. Sim, crianças podem ser cruéis, assim como professores, os coelhos de birmânia e o todo resto (ouvi falar que 12,5% deles estão possuídos pelo capeta). Eu posso até saber muito, dar uns conselhos que fazem os meus amigos se darem bem, mas quando é comigo, falta técnica, prática e segurança pra dar show. E confie em mim, dizer que tem medo de palco não ajuda. Fica aqui o protesto final.
O jeito é tentar e tentar, pra quem sabe assim resolver o paradoxo do candidato inexperiente, ou morrer tentando. Por sorte ainda tenho a Física.

"yo tengo miedo!"